Professor de Cambridge critica proposta de redução rápida de juros
O economista Tiago Cavalcanti, professor titular da Universidade de Cambridge, defende um ajuste fiscal gradual para o governo Lula em vez de medidas emergenciais. Em entrevista à BBC News Brasil, o pesquisador brasileiro argumenta que não existem “atalhos” para equilibrar as contas públicas e reduzir os juros simultaneamente.
Para Cavalcanti, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve anunciar com urgência uma nova equipe econômica comprometida com o equilíbrio das contas públicas. “Você pode fazer o compromisso de longo prazo. Então, não precisa cortar de uma vez, vamos suavizar isso ao longo dos anos”, propõe o economista.
O professor de Cambridge crítica especificamente a proposta de André Lara Resende, economista conhecido como um dos arquitetos do Plano Real, que defende reduzir a taxa Selic para 7,5% ao ano em apenas 12 meses. Segundo Cavalcanti, exemplos internacionais demonstram os riscos dessa abordagem. “Houve países que experimentaram isso, por exemplo a Turquia, onde teve muita pressão do presidente Erdogan, a taxa de juros caiu bastante em um período bem curto e o país foi para um nível de hiperinflação em pouquíssimo tempo”, alerta.
Cavalcanti considera que o controle de gastos não é incompatível com a promessa de Lula de manter programas sociais. No entanto, sugere mudanças na regra que garante reajuste de salário mínimo acima da inflação quando há crescimento econômico. Enquanto as contas públicas não estiverem equilibradas, o governo deveria garantir apenas a reposição inflacionária, defende.
O reajuste do salário mínimo impacta significativamente as despesas públicas, já que funciona como piso para aposentadorias, pensões do INSS e benefícios como o BPC — representando mais de 40% dos gastos primários da União. “Eu acho que recuperar o poder de compra é possível. Agora, quando você promete, além de recuperar o poder de compra, dar aumentos acima da inflação, isso já acho que não é mais compatível com o ajuste fiscal”, explica.
Com formação sólida, Cavalcanti possui doutorado e mestrado em Economia pela University of Illinois. Além de atuar em Cambridge, é professor da Fundação Getúlio Vargas. No início do ano, seu nome foi cogitado para uma das diretorias vagas no Banco Central. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, descartou a proposta de Resende e negou que Lula receberia o economista para reunião.
Fonte: BBC Brasil
Publicar Comentário