Direita deve abandonar bolsonarismo para voltar ao poder, diz Harvard
A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, três dias após perder a eleição presidencial de 2026 e questionar a legitimidade do resultado, expõe um dilema crucial enfrentado pela direita brasileira: manter-se aliada ao bolsonarismo ou se distanciar de um movimento que acumula duas derrotas consecutivas na disputa pelo Planalto.
Segundo o historiador Sidney Chalhoub, pesquisador de Harvard e professor do Departamento de História da Unicamp, a direita democrática precisa fazer uma escolha estratégica. “A direita vai ter que decidir se aliar-se à extrema direita é bom negócio. Perderam duas eleições com essa aliança”, afirma o especialista em entrevista à BBC News Brasil.
Chalhoub argumenta que romper com o bolsonarismo é condição necessária para que a direita volte a vencer eleições presidenciais. “Sem expurgar o golpismo, a direita continuará a perder”, sustenta o historiador.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente do presidente Lula, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%. No segundo turno, porém, foi derrotado, perdendo por uma diferença de 4,4 milhões de votos. Após o resultado, o senador não reconheceu a vitória e afirmou que pediria a anulação das eleições. Posteriormente, gravou vídeo pedindo a cassação do resultado, mas saiu do Brasil 24 horas depois com a família, pousando nos EUA na manhã de 28 de outubro.
A partida ocorreu após Flávio ser intimado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a entregar seus passaportes. A medida faz parte de inquérito que investiga suposta lavagem de dinheiro envolvendo o senador e seu amigo advogado Willer Tomaz.
Chalhoub identifica um padrão na direita radical brasileira: alegações de fraude eleitoral que justificam narrativas de perseguição política, legitimando fugas para evitar responder por crimes. Outros casos semelhantes incluem os ex-deputados Alexandre Ramagem, Eduardo Bolsonaro e Carla Zambelli, que também deixaram o país.
Apesar da derrota, o pesquisador avalia que o bolsonarismo não desaparecerá, mas “dificilmente voltará a ter a mesma força eleitoral que já alcançou”. O PL elegeu a maior bancada na Câmara dos Deputados e terá a maior representação no Senado, mantendo-se como ator político relevante.
Para o historiador, o movimento conservador de reação que começou após 2014 não se encerra com a derrota de Flávio Bolsonaro. Citando precedentes históricos brasileiros, Chalhoub afirma que “toda vez que há um avanço de direitos, tem de haver uma reação conservadora”, tornando prematuro concluir que esse ciclo chegou ao fim.
Fonte: BBC Brasil
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