Infância fugindo do FBI: filho de ativistas do Weather Underground relata experiência
Zayd Ayers Dohrn cresceu em um ambiente completamente atípico para crianças americanas. Seus pais, Bernadine Dohrn e Bill Ayers, eram líderes do Weather Underground, organização radical que atuava nos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970. A família vivia constantemente em fuga, utilizando identidades falsas e mudando de localização com frequência para evitar prisão pelo FBI.
Segundo o relato de Zayd ao programa Outlook da BBC, desde muito pequeno aprendeu lições revolucionárias. Seus pais o ensinavam a reconhecer policiais disfarçados entre multidões, a falar em código por telefone e a estar sempre alerta. Para ele, era como um jogo infantil. As paredes de seu quarto não exibiam personagens de filmes infantis, mas retratos de Che Guevara e Ho Chi Minh, líderes revolucionários que inspiravam seus pais.
O Weather Underground buscava visibilizar a desigualdade e injustiça racial colocando explosivos em edifícios simbólicos do governo americano, incluindo o Capitólio, Pentágono e Departamento de Estado. Quando Zayd nasceu, sua mãe já era uma das fugitivas mais procuradas pelo FBI.
A trajetória política dos pais começou após a chegada do líder civil Martin Luther King Jr. a Chicago em 1966. Bernadine Dohrn, brilhante estudante de Direito da Universidade de Chicago, envolveu-se ativamente em campanhas de justiça social. O assassinato de King em 1968 e a morte do líder das Panteras Negras, Fred Hampton, em 1969, a impulsionaram ainda mais para a militância radical.
O pai de Zayd, Bill Ayers, aderiu ao movimento principalmente por oposição ao serviço militar obrigatório e à Guerra do Vietnã (1965-1973). O lema dos ativistas era ‘Vamos trazer a guerra para casa’, buscando recriar a violência da guerra vietnamita nas ruas americanas para despertar consciência política.
Dohrn relata que a organização aproveitava-se de preconceitos sociais para agir. Mulheres se passavam por secretárias, entrando em edifícios altamente protegidos para coletar informações e colocar explosivos em locais estratégicos, frequentemente nos banheiros femininos. A aparência de pessoas brancas, educadas e eloquentes facilitava sua movimentação nesses espaços.
Para Zayd, porém, tudo era normal. Seus pais nunca mentiram sobre a perseguição do FBI, explicando-lhe de forma que uma criança pudesse compreender, comparando-se a Robin Hood: foragidos que roubavam dos ricos para dar aos pobres. A experiência marcante incluiu episódios como explorar uma prisão federal para planejar fugas e passar anos sem frequentar escola primária.
Fonte: BBC Brasil
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