Democratas no Congresso americano não freiam pressão de Trump sobre Brasil
A vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos não deve aliviar a pressão que o presidente Donald Trump mantém sobre o Brasil, conforme avaliam analistas consultados pela BBC News Brasil.
Embora os democratas conquistem a maioria na Câmara dos Representantes com 237 parlamentares contra 139 republicanos, e no Senado com 54 cadeiras contra 44 do partido de Trump, essa mudança na correlação de forças não afetará a política externa norte-americana. As tarifas impostas aos produtores brasileiros, as pressões para o país se distanciar da China — principal parceiro comercial brasileiro desde 2009 — e a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas permanecerão intactas.
Obstáculos institucionais limitados
O economista Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) entre 2007 e 2009 e ex-diretor do Banco Mundial, explica que o Congresso democrata não possui instrumentos institucionais para interferir na política comercial de Trump. “O Congresso mais democrata até modifica a capacidade de interlocução com o Itamaraty, mas ele não terá condições de mexer na política comercial de Trump, justamente onde estão as implicações mais fortes sobre a relação entre Washington e Brasília hoje”, avalia.
A mudança na composição do Congresso ocorrerá a partir de 3 de janeiro de 2027. Atualmente, os republicanos controlam o Senado com 53 cadeiras e a Câmara com 220 parlamentares, permitindo que Trump governe sem grandes constrangimentos políticos.
Relação mais conflituosa em 2027
De acordo com Canuto, a relação entre o parlamento americano e a Casa Branca deve se tornar mais conflituosa a partir do próximo ano. Apesar disso, a falta de competências institucionais do Congresso sobre política externa manterá as pressões sobre o Brasil e outros países. Podem haver pedidos de esclarecimentos e projetos de lei contrários à agenda do Executivo, mas nada que afete diretamente as tarifas.
Lucas Leite, professor da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), corrobora essa avaliação. Embora o governo Lula, recentemente reeleito, possa ganhar mais interlocução no Congresso democrata em temas como meio ambiente, isso não será suficiente para alterar a forma como Trump administra sua política externa. “Ele até terá mais empecilhos, especialmente na América Latina, mas a vitória democrata nas urnas não anula a agenda trumpista”, observa Leite.
Os dados das eleições mostram que os democratas voltarão a controlar o Congresso americano, revertendo a maioria republicana que pavimentou a governabilidade de Trump.
Fonte: BBC Brasil
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