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Direita precisa abandonar bolsonarismo para vencer eleições, diz historiador

Direita precisa abandonar bolsonarismo para vencer eleições, diz historiador

A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil para os Estados Unidos, após questionar a legitimidade de sua derrota presidencial, revela um impasse fundamental na política de direita brasileira. Para o historiador Sidney Chalhoub, pesquisador de Harvard e professor da Unicamp, o dilema é claro: a direita democrática terá de escolher entre manter a aliança com o bolsonarismo ou se afastar de um movimento que acumula fracassos eleitorais e conflita com as instituições democráticas.

“A direita vai ter que decidir se aliar-se à extrema direita é bom negócio. Perderam duas eleições com essa aliança”, afirma Chalhoub. Segundo ele, abandonar o golpismo é condição necessária para que esse campo político volte a vencer uma disputa presidencial. “Sem expurgar o golpismo, a direita continuará a perder.”

Na eleição de 2026, Flávio terminou o primeiro turno à frente do presidente Lula, com 47,03% contra 45,16% dos votos válidos. No segundo turno, porém, foi derrotado, com Lula conquistando 4,4 milhões de votos a mais. Imediatamente após o resultado, o senador questionou a vitória e solicitou a anulação das eleições. Cerca de 48 horas depois, saiu do país com sua família, pousando nos EUA na manhã de 28 de outubro.

A saída ocorreu depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, intimou Flávio a entregar seus passaportes. A determinação faz parte de inquérito que investiga suposta lavagem de dinheiro envolvendo o senador e seu amigo, o advogado Willer Tomaz.

Chalhoub identifica um padrão recorrente na direita radical brasileira: “A alegação de fraude eleitoral sustenta a narrativa de perseguição política, que justifica a fuga para evitar responder por crimes.” Ele cita os ex-deputados Alexandre Ramagem, Eduardo Bolsonaro e Carla Zambelli, que também deixaram o Brasil. Ramagem e Zambelli já haviam sido condenados quando saíram. Eduardo, irmão de Flávio, foi investigado e posteriormente condenado.

Apesar da derrota, o historiador avalia que o bolsonarismo “dificilmente voltará a ter a mesma força eleitoral que já alcançou”. Porém, isso não significa irrelevância política. O PL elegeu a maior bancada na Câmara e terá a maior representação no Senado, mantendo-se como ator importante no cenário político. “Minha impressão é que o bolsonarismo continua força política importante, mas não sei se será hegemônico na direita o suficiente para fazer candidatos competitivos daqui a quatro anos”, observa Chalhoub.

O historiador também situa esse ciclo dentro de um movimento conservador mais amplo, que começou com a reação política após 2014 e o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Para ele, há precedentes na história brasileira: reações a avanços de direitos após a abolição da escravidão e antes do golpe militar de 1964. “Toda vez que há avanço de direitos, tem de haver reação conservadora.” Por isso, Chalhoub considera prematuro afirmar que esse processo tenha se encerrado.

Fonte: BBC Brasil

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