Direita precisa se afastar do bolsonarismo para vencer, diz pesquisador
A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos três dias após perder a disputa presidencial reaviva um debate crucial na direita brasileira: manter-se vinculada ao bolsonarismo ou romper com um movimento que acumula duas derrotas consecutivas e mantém confronto permanente com as instituições democráticas.
O historiador Sidney Chalhoub, pesquisador da Universidade Harvard e professor do Departamento de História da Unicamp, analisa a situação em entrevista à BBC News Brasil. Segundo ele, a direita democrática enfrenta uma decisão estratégica. “A direita vai ter que decidir se aliar-se à extrema direita é bom negócio. Perderam duas eleições com essa aliança”, afirma o pesquisador, argumentando que romper com o bolsonarismo é essencial para que esse setor político recupere competitividade eleitoral.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente do presidente Lula, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% do petista. No segundo turno, porém, foi derrotado, com Lula conquistando 4,4 milhões de votos a mais. Logo após o resultado, o senador não reconheceu a vitória e pediu anulação das eleições. Cerca de 24 horas depois, partiu para os EUA com a família, desembarcando na manhã de 28 de outubro.
A saída do país ocorreu após ser intimado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a entregar seus passaportes. A determinação relaciona-se a investigação sobre suposta lavagem de dinheiro envolvendo Flávio e o advogado Willer Tomaz.
Para Chalhoub, esse padrão de comportamento reproduz-se na direita radical brasileira há anos. “A alegação de fraude eleitoral auxilia a narrativa de perseguição política, que justifica a fuga para evitar responder por crimes”, explica, citando os ex-deputados Alexandre Ramagem, Eduardo Bolsonaro e Carla Zambelli, que também deixaram o Brasil.
Quanto ao futuro do bolsonarismo, o historiador avalia que o movimento “dificilmente voltará a ter a mesma força eleitoral que já alcançou”. Contudo, reconhece sua relevância: o PL elegeu a maior bancada na Câmara dos Deputados e terá maior representação no Senado. Segundo Chalhoub, permanecerá como ator importante, mas sua hegemonia na direita para próximos candidatos presidenciais permanece incerta.
Chalhoub também situa esse ciclo conservador em contexto histórico mais amplo, começando com a eleição de 2014 e o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Para o pesquisador, reações conservadoras ocorrem sistematicamente após avanços de direitos na história brasileira, desde o pós-abolição até o golpe de 1964.
Fonte: BBC Brasil
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